Marquês de Sade

Ir em baixo

Marquês de Sade

Mensagem  JCKeep em Qua Maio 04, 2011 3:06 pm

Donatien Alphonse François, o marquês de Sade
(1740-1814), mais conhecido por ter emprestado seu nome para a
psicopatologia humana que se convencionou chamar de sadismo, na qual
castigos sexuais são infligidos com a finalidade de gerar o sofrimento da vítima e o deleite do
algoz. Entretanto, poucos sabem que pelos crimes de luxúria, cometidos contra a sociedade
francesa do século XVIII, o infame marquês pagou um preço caro e permaneceu grande parte
da sua existência na prisão. Seu trajeto em vida foi errático, a origem nobre e próspera não
foi o suficiente para impedir sua desdita. Não obstante, Sade certamente desfrutou de uma
vida opulenta e da concupiscência proporcionada por uma posição aristocrática na França
anterior à Revolução. Sua família, radicada na região de Provença, era bastante influente e se
orgulhava de uma comprovada descendência de Laura, a musa do poeta italiano Petrarca.
No auge da sua glória, o jovem Sade, ocupou o posto de capitão na cavalaria durante a
guerra dos Sete Anos. Porém, a partir de 1768, um longo revés da fortuna passa a assolar o
marquês.
Nesse ano suas práticas conhecidamente devassas lhe renderam uma condenação por
sodomia, no processo movido por Rose Keller (ou Kailair), situação da qual ele escapa quase
intocado. Posteriormente, suas constantes parties de libertinage o levam a outra condenação,
em 1772, no episódio conhecido como o caso das garotas da Rue de Capuchin. Devido a uma
série de condições desfavoráveis, nominalmente, os freqüentes excessos do marquês, seus
desafetos pessoais, as intrigas familiares e políticas, a própria decadência da monarquia
absolutista, parecem se juntar para torná-lo depositário, ou “bode expiatório” dos
desassossegos de uma sociedade em mutação. Em 1777, o tribunal o condena, em definitivo,
a um encarceramento de quatorze anos, sendo este o período mais longo que permaneceria
na cadeia, mas não o último. Mantido quase sempre em condições insalubres, Sade passa um
total de vinte e sete anos de sua vida trancado em diferentes prisões e sanatórios da França,
entre os quais se pode citar: Miolans, Vincennes, Saumur, Pierre-Enclise, Bastille, Sainte-Pelagie,
Madelonnettes, Saint-Lazare, Picpus e Charenton.
Apesar dos muitos anos passados no cárcere, não foi na restrição da liberdade que o
marquês de Sade encontrou melhoramento para sua conduta libertina. Ao contrário. Durante
o tempo em que permaneceu preso, desenvolveu uma forma oblíqua de compreender a
M
O Marquês de Sade e o Romance Filosófico do Século XVIII
Revista Eutomia Ano I – Nº 02 (362-377) 364
Natureza. Seu entendimento revela uma concepção caótica da Natureza e uma orientação
fundamentalmente sexual do mundo, produzindo um universo que exalta a mistura entre
violência e libido, e jamais procura refúgio na espiritualidade ou no princípio divino.
Obrigado à clausura, o marquês passou por um processo de intelectualização e se tornou
escritor. Despendia o tempo lendo, escrevendo cartas e elaborando suas famigeradas
histórias libertinas. Apesar da precariedade da prisão, longe de ser um ambiente propício à
leitura e escrita, entre outros livros, o marquês teria lido com atenção O Príncipe (1532) de
Maquiavel, L’Homme Machine (1748) de La Mettrie e O Sistema da Natureza (1770) de
D’Holbach, apropriando-se das idéias materialistas promulgadas nessas obras para elaborar
a sua posição intelectual. Sobre seu período no cárcere, sobrevivendo em condições muitas
vezes insalubres, e sua transformação intelectual, o crítico Donald Thomas afirma que Sade
“emergiu com o espírito intacto e uma chocante filosofia alternativa do comportamento
humano que escrevera no longo período de sua reclusão” (Thomas, 1992, p.10).
Retirado da web.
avatar
JCKeep
Membro
Membro

Mensagens : 21
Data de inscrição : 03/05/2011

Voltar ao Topo Ir em baixo

O Corno de si próprio ou a Reconciliação Imprevista

Mensagem  JCKeep em Qua Maio 04, 2011 3:16 pm

(Marques de Sade)

Um dos maiores defeitos das pessoas mal-educadas é expor uma porção de indiscrições, maledicências ou calúnias sobre tudo o que respira, e isso diante das pessoas que não conhecem; não se poderia imaginar a quantidade de casos que se tornaram o fruto de semelhantes falatórios: qual é o homem honesto, com efeito, que ouvirá falar mal do que o interessa sem dar reparo aos malefícios a que o expõe? Não se faz com que esse princípio de sábia moderação penetre o bastante a educação dos jovens, não se lhes ensina o suficiente a conhecer o mundo, os nomes, as qualidades, as atinências das pessoas com as quais é-lhes dado conviver; coloca-se, no lugar desse princípio, mil asneiras que só servem para a conspurcação, no exato momento em que se alcança a idade da razão. Sempre faz lembrar capuchinhos ensinando, a todo instante, beatices, hipocrisias ou inutilidades, e nunca uma boa máxima de moral. Ide mais longe, interrogar um jovem sobre seus verdadeiros deveres para com a sociedade, perguntai-lhe o que deve a si mesmo e aos outros, de que modo é preciso conduzir-se a fim de ser feliz: ele vos responderá que se lhe ensinou a ir à missa e rezar litanias, mas que nada compreende do que quereis dizer- lhe; que se lhe ensinou a dançar, a cantar, mas não a viver entre os homens. O caso que se tomou a conseqüência do inconveniente que descrevemos não foi sério a ponto de causar derramamento de sangue, disso não resultando senão um gracejo; e é para esmiuçá-la que iremos abusar alguns minutos da paciência de nossos leitores.


O Sr. Raneville, de cinqüenta anos aproximadamente, tinha um desses temperamentos fleumáticos que não deixam de exercer, em absoluto, certo encanto no mundo: rindo pouco, mas fazendo os outros rirem muito; pelas tiradas de seu espírito mordaz e pela maneira frívola com que as proferia, amiúde encontrava, unicamente por seu silêncio, ou pelas expressões burlescas de sua fisionomia taciturna, o segredo de divertir mil vezes mais os círculos em que era admitido do que esses tagarelas maçadores sem vivacidade, monótonos, tendo sempre um conto a vos narrar do qual riem uma hora antes, sem ser bastante felizes para alegrar sequer um minuto quantos o escutam. Tinha ele um importante emprego no departamento do fisco, e, para se consolar de um péssimo casamento outrora contraído em Orléans, após ter por lá deixado sua mulher desonesta, em Paris despendia sem preocupação vinte ou vinte e cinco mil libras de renda com uma mulher belíssima a quem sustentava, e com alguns amigos tão amáveis quanto ele.

A amante do Sr. Raneville não era propriamente uma moça, mas uma mulher casada e, por conseqüência, mais ardente, pois, mesmo que se queira negar, essa pitada de sal do adultério acrescenta com freqüência grande sabor a um gozo; era ela muito bonita, com seus trinta anos, e tinha o mais belo corpo que é possível achar; separada do marido, medíocre e desagradável, viera da província em busca de fortuna em Paris, e não demorara muito para a encontrar. Raneville, naturalmente libertino, à espreita de todo bom pedaço, não deixara escapar este e, havia três anos, por mui honesto tratamento, fineza e dinheiro, fazia com que essa jovem esquecesse todas as decepções que outrora aprouve ao himeneu disseminar em seu caminho. Ambos, tendo aproximadamente o mesmo destino, consolavam-se de maneira mútua, e se certificavam dessa grande verdade que, entretanto, não corrige ninguém, segundo a qual só há tantos casamentos maus e, em conseqüência, tanta infelicidade no mundo, porque pais avaros ou imbecis unem mais as fortunas do que os temperamentos: pois - dizia amiúde Raneville à sua amante -, é bem certo que se o acaso nos tivesse unido, em vez de nos dar, a vós, um marido tirano e ridículo, e a mim, uma mulher prostituta, as rosas teriam nascido aos nossos pés em vez dos espinhos que por tanto tempo
colhemos.

Um acontecimento corriqueiro, do qual é bastante desnecessário falar, levou certo dia o Sr. Raneville a essa aldeia lamacenta e insalubre denominada Versalhes, onde reis feitos para serem adorados em sua capital parecem fugir à presença de súditos que os procuram, onde a ambição, a avareza, a vingança, e o orgulho levam diariamente uma multidão de infelizes nas asas do tormento a sacrificar ao ídolo do momento, onde a elite da nobreza da França, que poderia desempenhar um papel importante em suas terras, consente vir se humilhar em antecâmaras, adular de modo vil porteiros, ou mendigar humildemente uma refeição pior do que a sua para alguns desses indivíduos que a sorte arranca, por uns momentos, às nuvens do esquecimento, a fim de os recolocar lá pouco depois.

Tendo resolvido seus negócios, o Sr. Raneville monta num desses coches da corte denominados “penicos”, e, lá se encontra fortuitamente em companhia de um certo Dutour, muito tagarela, bem gordo e pesado, grande trocista, também empregado no departamento do fisco, só que em Orléans, sua terra, a qual, conforme disse há pouco, é igualmente a do Sr. Raneville. Trava-se a conversa, Raneville sempre lacônico e sem jamais se revelar, já sabe o nome, o sobrenome, a cidade e a ocupação do seu companheiro de estrada, antes de dizer sequer uma palavra. Tendo informado esses detalhes, o Sr. Dutour adentra um pouco mais naqueles da sociedade.
- Vós estivestes em Orléans, senhor - diz Dutour -, segundo
me parece, acabais de afirmar isso.
- Em tempos passados, lá residi alguns meses.
- E conhecestes, dizei-me, certa Sra. Raneville, uma das

maiores p. do mundo que já moraram em Orléans?
- Sra. Raneville, uma mulher bastante bonita.
- Exato.
- Sim, eu a conheci em certa ocasião.
Pois bem, eu vos direi confidencialmente que a possuí, por três
dias, como se faz com uma p. Com toda certeza, se há um
marido cornudo, pode-se dizer que ele é esse pobre Raneville.
- E o conheceis?
E para constatar suas máximas, Raneville começa por retirar um lenço de gaze que revela nesse instante o mais belo pescoço que é possível deslumbrar... Dutour se inflama.
- E então - diz Raneville -, o que achais disso?
- São os atributos da própria Vênus.

- Acreditai: seios tão alvos e firmes são feitos para incendiar... Tocai-os, meu camarada! Os olhos algumas vezes nos enganam; minha opinião é a de que, em matéria de volúpia, é preciso valer-se de todos os sentidos.

Dutour estende a mão trêmula, apalpa, com êxtase, o mais belo seio do mundo, e não deixa de se surpreender com a incrível complacência de seu amigo.

- Vamos, mais para baixo! - diz Raneville, levantando até o ventre uma saia leve de tafetá, sem que nada se oponha a essa incursão - pois bem! O que dizeis dessas coxas? Acreditais que o templo do amor possa ser sustentado por colunas mais belas do que essas?
E o caro Dutour, continuando a apalpar tudo o que Raneville
lhe exibia:

- Patife! Adivinho vossos pensamentos - continua o complacente amigo -, esse delicado templo, que as próprias Graças cobriram de um musgo suave... Ardeis com desejos de entreabri-lo, não é verdade? O que digo; com vontade de lá colher um beijo, isso sim.

E Dutour transtornado... Balbuciando... Não respondia mais senão pela violência das sensações das quais seus olhos eram os instrumentos; encorajam-no... Seus dedos libertinos acariciam os pórticos do templo que a própria volúpia descerra a seus desejos: esse beijo divino permitido, ele o dá, e por uma hora o saboreia.
- Amigo - diz ele -, não agüento mais! Expulsai-me de vossa
casa, ou permiti que eu siga em frente.
- Como? Em frente? E para que diabo de lugar desejas ir,
respondei-me?
- Pobre de mim; vós não me compreendeis de modo algum;

estou inebriado de amor, não posso mais me conter.
- E se essa mulher é feia?
- É impossível sê-lo com encantos tão divinos.
- Se ela é...
- Que ela seja tudo o que quiser, eu vos digo, meu caro; não
posso mais resistir a isso.

- Segui em frente, portanto, terrível amigo, segui; satisfazei- vos, pois que é preciso: sereis pelo menos grato por minha complacência?

- Ah! Terei a maior gratidão, sem dúvida. E Dutour com a mão afastava delicadamente o amigo, como que para deixá-lo a sós com essa mulher.

- Oh! Para deixar-vos, não, não posso - diz Raneville -, mas sois, assim, tão escrupuloso que não podeis vos contentar com minha presença? Entre homens não se age absolutamente desse modo: de resto, são minhas condições; ou diante de mim, ou nada.

- Fosse diante do diabo - diz Dutour, não se contendo mais e precipitando-se ao santuário onde seu incenso vai se queimar -, se assim quereis, concordo com tudo...

- Pois bem - dizia de modo fleumático Raneville - as aparências vos enganaram, e as delícias prometidas por tão diversos encantos são ilusórias ou reais... Ah! Nunca, nunca vi algo de tão voluptuoso.
- Mas esse maldito véu, amigo, esse véu pérfido: não me será
permitido retirá-lo?

- Sim... No último momento, naquele momento tão deleitável, em que todos os nossos sentidos, seduzidos pela embriaguez dos deuses, ela sabe nos tomar tão afortunados quanto eles próprios, e amiúde bem superiores. Essa surpresa dobrará vosso êxtase: ao encanto de usufruir a própria Vênus, vós acrescentareis as inexprimíveis delícias de contemplar as feições de Flore, e tudo isso se unindo a fim de aumentar vossa felicidade; mergulhareis com bem mais facilidade nesse oceano de prazeres, onde o homem encontra com tanta satisfação o consolo de sua existência... Vós me fareis um sinal...
- Oh! Como podeis ver - diz Dutour -, sinto-me arrebatado
neste momento.
- Sim, estou vendo; sois fogoso.

- Mas fogoso a um ponto... Ó meu amigo! Atinjo este instante celeste! Arrancai, arrancai esses véus, que eu contemple o próprio firmamento.

- Ei-lo - diz Raneville fazendo desaparecer o véu -, mas cuidado para não encontrardes talvez, um Pouco perto desse paraíso o inferno!

- Oh! Pelos céus - exclama Dutour, ao reconhecer sua mulher -... O quê? Sois vós, senhora?... Senhor, que estranho gracejo! Vós mereceríeis... Essa celerada...

- Um momento, um momento, homem fogoso! Sois vós que mereceis tudo; aprendei, meu amigo, que é preciso ser um pouco mais cauto com as pessoas que não se conhece do que o fostes comigo ontem. Esse infeliz Raneville que haveis tratado tão mal em Orléans... Sou eu mesmo, senhor; como vedes, eu o retribuo a vós em Paris; de resto, aqui estais, bem mais avançado do que poderíeis crer; pensáveis ter feito corno de mim e acabais de fazê-lo de vós mesmo.
Dutour aprendeu a lição, estendeu a mão ao amigo, e concordou que recebera o que havia merecido.
- Mas essa pérfida...

- Pois bem, ela não vos imita? Qual é a lei bárbara que faz acorrentar desumanamente esse sexo, concedendo-nos toda a liberdade? É ela eqüitativa? E por que direito natural encerrais vossa mulher em Sainte-Aure, enquanto, em Paris e em Orléans, fazeis os maridos cornos? Meu amigo, isso não é justo, essa encantadora criatura, cujo valor não soubesses reconhecer, veio em busca de outras conquistas: ela teve razão; encontrou-me; faço sua felicidade; fazei a da Sra. Raneville; concordo com isso, vivamos felizes os quatro, e que as vítimas do destino não se tornem as dos homens.

Dutour achou que seu amigo tinha razão, mas por uma fatalidade inconcebível, tornou a se apaixonar com a mão loucamente por sua mulher; Raneville, por mais cáustico, tinha a alma bela demais para resistir aos pedidos de Dutour quanto a recuperar sua mulher, a jovem concordou com isso, e houve nesse acontecimento único, sem dúvida, um exemplo bem singular dos golpes do destino e dos caprichos do amor.
avatar
JCKeep
Membro
Membro

Mensagens : 21
Data de inscrição : 03/05/2011

Voltar ao Topo Ir em baixo

O Marido Padre

Mensagem  JCKeep em Qui Set 22, 2011 11:13 am

Entre a cidade de Menerbe, no condado de Avinhão, e a de Apt, em Provença, há um pequeno convento de carmelitas isolado, denominado Saint-Hilaire, assentado no cimo de uma montanha onde até mesmo às cabras é difícil o pasto; esse pequeno sítio é aproximadamente como a cloaca de todas as comunidades vizinhas aos carmelitas; ali, cada uma delas relega o que a desonra, de onde não é difícil inferir quão puro deve ser o grupo de pessoas que freqüenta essa casa. Bêbados, devassos, sodomitas, jogadores; são esses, mais ou menos, os nobres integrantes desse grupo, reclusos que, nesse asilo escandaloso, o quanto podem ofertam a Deus almas que o mundo rejeita. Perto dali, um ou dois castelos e o burgo de Menerbe, o qual se acha apenas a uma légua de Saint-Hilaire - eis todo o mundo desses bons religiosos que, malgrado sua batina e condição, estão, entretanto, longe de encontrar abertas todas as portas de quantos estão à sua volta.

Havia muito o padre Gabriel, um dos santos desse eremitério, cobiçava certa mulher de Menerbe, cujo marido, um rematado corno, chamava-se Rodin. A mulher dele era uma moreninha, de vinte e oito anos, olhar leviano e nádegas roliças, a qual parecia constituir em todos os aspectos lauto banquete para um monge. No que tange ao Sr. Rodin, este era homem bom, aumentando o seu patrimônio sem dizer nada a ninguém: havia sido negociante de panos, magistrado, e era, pois, o que se poderia chamar um burguês honesto; contudo, não muito seguro das virtudes de sua cara-metade, era ele sagaz o bastante para saber que o verdadeiro modo de se opor às enormes protuberâncias que ornam a cabeça de um marido é dar mostras de não desconfiar de os estar usando; estudara para tornar-se padre, falava latim como Cícero, e jogava bem amiúde o jogo de damas com o padre Gabriel que, cortejador astuto e amável, sabia que é preciso adular um pouco o marido de cuja mulher se deseja possuir. Era um verdadeiro modelo dos filhos de Elias, esse padre Gabriel: dir-se-ia que toda a raça humana podia tranqüilamente contar com ele para multiplicar-se; um legítimo fazedor de filhos, espadaúdo, cintura de uma alna* , rosto perverso e trigueiro, sobrancelhas como as de Júpiter, tendo seis pés de altura e aquilo que é a característica principal de um carmelita, feito, conforme se diz, segundo os moldes dos mais belos jumentos da província. A que mulher um libertino assim não haveria de agradar soberbamente? Desse modo, esse homem se prestava de maneira extraordinária aos propósitos da Sra. Rodin, que estava muito longe de encontrar tão sublimes qualidades no bom senhor que os pais lhe haviam dado por esposo. Conforme já dissemos, o Sr. Rodin parecia fazer vistas grossas a tudo, sem ser, por isso, menos ciumento, nada dizendo, mas ficando por ali, e fazendo isso nas diversas vezes em que o queriam bem longe. Entretanto, a ocasião era boa. A ingênua Rodin simplesmente havia dito a seu amante que apenas aguardava o momento para corresponder aos desejos que lhe pareciam fortes demais para que continuasse a opor- lhes resistência, e padre Gabriel, por seu turno, fizera com que a Sra. Rodin percebesse que ele estava pronto a satisfazê-la... Além disso, num breve momento em que Rodin fora obrigado a sair, Gabriel mostrara à sua encantadora amante uma dessas coisas que fazem com que uma mulher se decida, por mais que hesite... Só faltava, portanto, a ocasião.

Num dia em que Rodin saiu para almoçar com seu amigo de Saint-Hilaire, com a idéia de o convidar para uma caçada, e depois de ter esvaziado algumas garrafas de vinho de Lanerte, Gabriel imaginou encontrar na circunstância o instante propício à realização dos seus desejos.

- Oh, por Deus, senhormagistrado, - diz o monge ao amigo - como estou contente de vos ver hoje! Não poderíeis ter vindo num momento mais oportuno do que este; ando às voltas com um caso da maior importância, no qual haveríeis de ser a mim

de serventia sem par.
- Do que se trata, padre?
- Conheceis Renoult, de nossa cidade.
- Renoult, o chapeleiro.
- Precisamente.
- E então?
- Pois bem, esse patife me deve cemécus * , e acabo de saber que ele se acha às portas da falência; talvez agora, enquanto vos falo, ele já tenha abandonado o Condado... Preciso muitíssimo correr até lá, mas não posso fazê-lo.
- O que vos impede?

- Minha missa, por Deus! A missa que devo celebrar; antes a missa fosse para o diabo, e os cemécus voltassem para o meu bolso.
- Não compreendo: não vos podem fazer um favor?

- Oh, na verdade sim, um favor! Somos três aqui; se não celebrarmos todos os dias três missas, o superior, que nunca as celebra, nos denunciaria à Roma; mas existe um meio de me ajudardes, meu caro; vede se podeis fazê-lo; só depende de vós.
- Por Deus! De bom grado! Do que se trata?

- Estou sozinho aqui com o sacristão; as duas primeiras missas foram celebradas, nossos monges já saíram, ninguém suspeitará do ardil; os fiéis serão poucos, alguns camponeses, e quando muito, talvez, essa senhorazinha tão devota que mora no castelo de... A meia légua daqui; criatura angelical que, à força da austeridade, julga poder reparar todas as estroinices do marido; creio que me dissestes que estudastes para ser padre.

- Certamente.
- Pois bem, deveis ter aprendido a rezar a missa.
- Faço-o como um arcebispo.

- Ó meu caro e bom amigo! - prossegue Gabriel lançando-se ao pescoço de Rodin - são dez horas agora; por Deus, vesti meu hábito, esperai soar a décima primeira hora; então celebrai a missa, suplico-vos; nosso irmão sacristão é um bom diabo, e nunca nos trairá; àqueles que julgarem não me reconhecer, dir- lhes-emos que é um novo monge, quanto aos outros, os deixaremos em erro; correrei ao encontro de Renoult, esse velhaco, darei cabo dele ou recuperarei meu dinheiro, estando de volta em duas horas. O senhor me aguardará, ordenará que grelhem os linguados, preparem os ovos e busquem o vinho; na volta, almoçaremos, e a caça... Sim, meu amigo, a caça, creio que há de ser boa dessa vez: segundo se disse, viu-se pelas redondezas um animal de chifres, por Deus! Quero que o agarremos, ainda que tenhamos de nos defender de vinte processos do senhor da região!

- Vosso plano é bom - diz Rodin - e, para vos fazer um favor, não há, decerto, nada que eu não faça; contudo, não haveria pecado nisso?

- Quanto a pecados, meu amigo, nada direi; haveria algum, talvez, em executar-se mal a coisa; porém, ao fazer isso sem que se esteja investido de poderes para tanto, tudo o que dissentes e nada são a mesma coisa. Acreditai em mim; sou casuísta, não há em tal conduta o que se possa chamar pecado venial.
- Mas seria preciso repetir a liturgia?

- E como não? Essas palavras são virtuosas apenas em nossa boca, mas também esta é virtuosa em nós... Reparai, meu amigo, que se eu pronunciasse tais palavras deitado em cima de vossa mulher, ainda assim eu havia de metamorfosear em deus o templo onde sacrificais... Não, não, meu caro; só nós possuímos a virtude da transubstanciação; pronunciaríeis vinte mil vezes as palavras, e nunca faríeis descer algo dos céus; ademais, bem amiúde conosco a cerimônia fracassa por completo; e, aqui, é a fé que faz tudo; com um pouco de fé transportaríamos montanhas, vós sabeis, Jesus Cristo o disse, mas quem não tem fé nada faz...
* Antiga moeda francesa. (N. dos T.)

eu, por exemplo, se nas vezes em que realizo a cerimônia penso mais nas moças ou nas mulheres da assembléia do que no diabo dessa folha de pão que revolvo em meus dedos, acreditais que faço algo acontecer? Seria mais fácil eu crer no Alcorão que enfiar isso na minha cabeça. Vossa missa será, portanto, quase tão boa quanto a minha; assim, meu caro, agi sem escrúpulo, e, sobretudo, tende coragem.
- Pelos céus, - diz Rodin - é que tenho uma fome devoradora!
Ainda faltam duas horas para o almoço!
- E o que vos impede de comer um pouco? Aqui tendes
alguma coisa.
- E a tal missa que é preciso celebrar?

- Por Deus! O que há de mal nisso? Acreditais que Deus se há de macular mais caindo numa barriga cheia em vez de numa vazia? O diabo me carregue se não é a mesma coisa a comida estar em cima ou embaixo! Meu caro, se eu dissesse em Roma todas as vezes que almoço antes de celebrar minha missa, passaria minha vida na estrada. Além disso, não sois padre, nossas regras não vos podem constranger; ireis tão-somente dar certa imagem da missa, não ireis celebrá-la; conseqüentemente, podereis fazer tudo o que quiserdes antes ou depois, inclusive beijar vossa mulher, caso ela aqui estivesse; não se trata de agir como eu; não é celebrar, nem consumar o sacrifício.

- Prossigamos - diz Rodin - hei de fazê-lo, Podeis ficar tranqüilo.

- Bem - diz Gabriel, dando uma escapadela, depois de fazer boas recomendações do amigo ao sacristão... - contai comigo, meu caro; antes de duas horas estarei aqui - e, satisfeito, o monge vai embora.

Não é difícil imaginar que ele chega apressado à casa da mulher do magistrado; que ela se admira de vê-lo, julgando-o em companhia de seu marido; que ela lhe pergunta a razão de visita tão imprevista.
- Apressemo-nos, minha cara - diz o monge, esbaforido -
apressemo-nos! Temos para nós apenas um instante... Um copo

de vinho, e mãos à obra!
- Mas, e quanto a meu marido?
- Ele celebra a missa.
- Celebra a missa?

- Pelo sangue de Cristo, sim, mimosa - responde o carmelita, atirando a Sra. Rodin ao leito - sim, alma pura, fiz de seu marido um padre, e, enquanto o farsante celebra um mistério divino, apressemo-nos em levar a cabo um profano...

O monge era vigoroso; a uma mulher, era difícil opor-se-lhe quando ele a agarrava: suas razões, por sinal, eram tão convincentes... Ele se põe a persuadir a Sra. Rodin, e, não se cansando de fazê-lo a uma jovem lasciva de vinte e oito anos, com um temperamento típico da gente de Provença, repete algumas vezes suas demonstrações.

- Mas, meu anjo - diz, enfim, a beldade, perfeitamente persuadida - sabeis que se esgota o tempo... Devemos nos separar: se nossos prazeres devem durar apenas o tempo de uma missa, talvez ele já esteja há muito no ite missa est.

- Não, não, minha querida - diz o carmelita, apresentando outro argumento à Sra. Rodin -, deixai estar, meu coração, temos todo o tempo do mundo! Uma vez mais, minha cara amiga, uma vez mais! Esses noviços não vão tão rápido quanto nós... Uma vez mais, vos peço! Apostaria que o corno ainda não ergueu a hóstia consagrada.

Todavia, mister foi que se despedissem, não sem promessas de se reverem; tracejaram novos ardis, e Gabriel foi encontrar-se com Rodin; este havia celebrado a missa tão bem quanto um bispo.

- Apenas o quod aures - diz ele - embaraçou-me um pouco; eu queria comer em vez de beber, mas o sacristão fez com que eu me recompusesse; e quanto aos cemécus, padre?

- Recuperei-os, meu filho; o patife quis resistir, peguei de um forcado, dei-lhe umas pauladas, juro-vos, na cabeça e noutras partes.

Entretanto, a diversão termina; nossos dois amigos vão à caça e, ao regressar, Rodin conta à sua mulher o favor que prestou a Gabriel.

- Celebrei a missa - dizia o grande tolo, rindo com todas as forças - sim, pelo corpo de Cristo! Eu celebrava a missa como um verdadeiro vigário, enquanto nosso amigo media as espáduas de Renoult com um forcado... Ele dava com a vara; que dizeis disso, minha vida? Colocava galhos na fronte; ah! Boa e querida mãezinha! Como essa história é engraçada, e como os cornos me fazem rir! E vós, minha amiga, o que fazíeis enquanto eu celebrava a missa?

- Ah! Meu amigo - responde a mulher - parecia inspiração dos céus! Observai de que modo nos ocupavam de todo, a um e a outro, as coisas do céu, sem que disso suspeitássemos; enquanto celebráveis a missa, eu entoava essa bela oração que a Virgem dirige a Gabriel quando este fora anunciar-lhe que ela ficaria grávida pela intervenção do Espírito Santo. Assim seja, meu amigo! Seremos salvos, com toda certeza, enquanto ações tão boas nos ocuparem a ambos ao mesmo tempo.
avatar
JCKeep
Membro
Membro

Mensagens : 21
Data de inscrição : 03/05/2011

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Marquês de Sade

Mensagem  soufadegorda em Seg Out 24, 2011 7:57 pm

Simplesmente divina a terceira estrofe do parágrafo 4.

Uma obra divina

Obrigado

soufadegorda

Mensagens : 11
Data de inscrição : 24/10/2011

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Marquês de Sade

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Voltar ao Topo


 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum